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ÍNDICA MISSANGA SOBRE O TEU CORPO
Agora percorro-te pelas artérias de poeira e branco encardido. Pedra obsessiva, vazia, petrificando o tempo. Pedra de mulher mítica, olhando-me. Mulher onde eram as ondas e os pássaros e os barcos elementares.
E agora fotografo-te em ritmo de coda, em variações batidas pelas veias abertas do teu segredo violado. Usurpado. Acrescentado. Agora, sobre os dias de tédio martelados a luz, de partos povoando-se, da epiderme em grito contra a pedra. Naufrágio de colmo guerrilhando-te os afectos, os amantes em rotação de geografias, o íman das coifas e das desembainhadas, tesas baionetas.
Agora possuo-te. Perco-te. A minha boca em Macua perguntando-te como se diz «bom dia», neste articulado silêncio de arquitecturas que em quotidiano caminhar cruzo, tu cruzas, entre levas de intestino e fome. Como um distúrbio da grandeza maior que te cobre.
Agora eu, moçambicana concha, madeirame de açoitada nau escorando-me os músculos, indica missanga perdida, sobre o teu corpo, minha mulher, minha irmã, minha mãe, percorro-te. Sou.
(Poema do moçambicano Luís Carlos Patraquim.)
Escrito por Claudio Daniel às 08h18
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Tela: Marc Chagall.
PENSAMENTO DO DIA
"Cada vez mais percebo que não existe literatura, existe vida, e que não existe vida, existe literatura".
(De uma escritora indiana do século XVIII, em A Luz da Lamparina, que publicou sem autoria, para manter-se oculta. Quem terá sido a figura?)
Escrito por Claudio Daniel às 08h29
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ÁFRICA

O poeta angolano David Mestre.
É neste silêncio neste assalto do vento a
navegar a floresta neste sol neste amor
neste vegetal cobrir-me de verde e ser
catana cerce a executar o ânimo
afagar as mulheres no regresso da lavra
fazer das mãos a festa sonora do sexo
na cultivação do milho
É neste grito rente ao corpo frágil das
folhas que mais em ti me venço e
moro nas grandes batalhas da vida
no extenso vale das nossas angústias
no duelo cíclico das nossas intenções
(Poema de David Mestre, enviado por Virna Teixeira)
Escrito por Claudio Daniel às 08h27
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DIÁRIO DE UM VIAJANTE
Caros, farei as malas de novo, para participar do II Seminário de Literatura e Informática, que acontecerá neste final de semana em Florianópolis. Vou lá para falar sobre a Zunái, e aproveitarei a ocasião para comer salsichas, beber cerveja e quem sabe trocar olhares com alguma jovenzinha alemã. Bien, mas vamos às novidades: a revista espanhola Guaraguao, editada em Barcelona, publicou quatro poemas meus, incluindo dois inéditos, traduzidos por Marianela Gonzáles. A publicação traz ainda textos de Aimé Césaire e um caderno interessante sobre a negritude na América Latina. O que mais? O Correio das Artes, editado pelo mujahedin Linaldo Guedes, publicou uma resenha de Figuras Metálicas, escrita pelo Rodrigo de Souza Leão (soube que o livro foi destacado também na TV Cultura, mas não vi). E para concluir o programa “Viva Nóize”, o site Veja São José publicou entrevista comigo, realizada por Joca Farias, que vocês podem acessar no endereço http://www.vejosaojose.com.br/entrevclaudiod.htm. Well, o resto são dívidas impagáveis, poemas inconclusos e o miado do gato siamês que não me deixa dormir. Vejam abaixo um poema do mujahedin Bertold Brecht. Besos do
CD
Escrito por Claudio Daniel às 08h31
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Bertold Brecht (1898-1956)
LISTA DE PREFERÊNCIAS
Alegrias, as desmedidas.
Dores, as não curtidas.
Casos, os inconcebíveis.
Conselhos, os inexeqüíveis.
Meninas, as veras.
Mulheres, insinceras.
Orgasmos, os múltiplos.
Ódios, os mútuos.
Domicílios, os passageiros.
Adeuses, os bem ligeiros.
(CONTINUA ABAIXO)
Escrito por Claudio Daniel às 08h30
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Artes, as não rentáveis.
Professores, os enterráveis.
Prazeres, os transparentes.
Projetos, os contingentes.
Inimigos, os delicados.
Amigos, os estouvados.
Cores, o rubro.
Meses, outubro.
Elementos, os fogos.
Divindades, o logos.
Vidas, as espontâneas.
Mortes, as instantâneas.
(Poema de Brecht traduzido por Paulo César de Souza)
Escrito por Claudio Daniel às 08h29
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Lília Brick, em foto de Rodtchenko.
Escrito por Claudio Daniel às 09h15
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O AMOR
Talvez
quem sabe
um dia
por uma alameda do zoológico ela também chegará. Ela,
que também amava os animais
entrará sorridente
assim como está
na foto sobre a mesa
Ela é tão bonita... Ela é tão bonita
que, na certa, eles a ressuscitarão. O século trinta
vencerá
o coração destroçado já pelas mesquinharias. Agora
vamos alcançar
tudo o que não podemos amar na vida com o estrelar das noites inumeráveis.
Ressuscita-me,
ainda que mais não seja,
porque sou poeta
e ansiava o futuro. Ressuscita-me,
lutando contra as misérias do quotidiano. Ressuscita-me,
por isso.
Ressuscita-me,
quero acabar de viver o que me cabe,
minha vida
para que não mais existam amores servis. Ressuscita-me,
para que ninguém mais tenha
que sacrificar-se por uma casa, um buraco.
Ressuscita-me, para que a partir de hoje
a família
se transforme
e o pai
seja pelo menos o Universo
e a mãe
seja no mínimo a Terra.
(Poema de Maikovski, traduzido por Ney Costa Santos.)
Escrito por Claudio Daniel às 09h14
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MENINOS, EU VI
Sim, eu vi a peça O Percevejo, de Maiakovski, no Sesc Pompéia, lá nos remotos anos 80. No elenco, estavam Cacá Rosset, Dedé Veloso (que fez um topless rápido) e Maria Alice Vergueiro, entre outros, com direção de Luís Celso Martinez Corrêa (irmão do Zé Celso, e também brilhante diretor; faleceu há alguns anos, vítima de assassinato). A montagem foi delirante, misturando números circenses e projeções de super-oito, com a irreverência e a radicalidade que o poeta tanto prezava (e nós também). A música incidental era do Caetano, sobre poemas de Maiakovski traduzidos por Augusto de Campos (além de uma bela versão para o português de In my solitude, do repertório de Billie Holliday). Até hoje, essa foi a peça teatral que me bateu mais fundo. O poema acima, também musicado por Caê, foi cantado no final da peça, aliás emocionante. Para quem quiser ouvir, confira o disco Minha Voz, de Gal Costa. Sei, estou ficando velho; o primeiro sintoma é ficar saudosista dos verdes anos, quando ouvíamos Arrigo Barnabé, líamos Paulo Leminski, acreditávamos na poesia, na paixão e na revolução. Naquela época, ninguém na nossa turma achava que “vencer na vida” era ter “sucesso” profissional e comprar bugigangas no shopping center. É, bons tempos aqueles, “que os anos não trazem mais”. Memórias sentimentais de um quarentão.
Escrito por Claudio Daniel às 09h12
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LILÍTCHKA! (EM LUGAR DE UMA CARTA)

Vladimir Maiakovski (1893-1930)
Fumo de tabaco rói o ar. O quarto- um capítulo do inferno de Krutchonikh. Recorda — atrás desta janela pela primeira vez apertei tuas mãos, atônito. Hoje te sentas, no coração-aço Um dia mais e me expulsarás, talvez, com zanga. No teu "hall" escuro longamente o braço, trêmulo, se recusa a entrar na manga. Sairei correndo, lançarei meu corpo à rua. Transtornado, tornado louco pelo desespero. Não o consistas, meu amor, meu bem, digamos até logo agora. De qualquer forma o meu amor — duro fardo por certo — pesará sobre ti onde quer que te encontres. Deixa que o fel da mágoa ressentida num último grito estronde.
(CONTINUA ABAIXO)
Escrito por Claudio Daniel às 08h20
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Quando um boi está morto de trabalho ele vai e se deita na água fria Afora teu amor para mim não há mar, e a dor do teu amor nem a lágrima alivia. Quando o elefante cansado quer repouso ele jaz como um rei na areia ardente. Afora teu amor para mim não há sol, e eu não sei onde estás e com quem. Se ela assim torturasse um poeta, ele trocaria sua amada por dinheiro e glória mas a mim nenhum som me importa afora o som de teu nome que eu adoro. E não me lançarei no abismo, e não beberei veneno, e não poderei apertar na têmpora o gatilho. Afora teu olhar nenhuma lâmina me atrai com seu brilho. Amanhã esquecerás que eu te pus num pedestal, que incendiei de amor uma alma livre e os dias vãos - rodopiante carnaval - dispersarão as folhas dos meus livros... Acaso as folhas secas destes versos far-te-ão parar, respiração opressa?
Deixa ao menos arrelvar numa última carícia teu passo que se apressa.
26 de maio de 1916. Petrogrado
(Tradução: Augusto de Campos. Extraído do livro Poemas de Maiakovski, ed. Perspectiva, não vou dizer o nome da coleção.)
Escrito por Claudio Daniel às 08h19
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Outro retrato de John Donne.
ELEGIA: INDO PARA O LEITO
Vem, Dama, que eu desafio a paz; Até que eu lute, em luta o corpo jaz. Como o inimigo diante do inimigo, Canso-me de esperar se nunca brigo. Solta esse cinto sideral que vela, Céu cintilante, uma área ainda mais bela. Desata esse corpete constelado, Feito para deter o olhar ousado. Entrega-te ao torpor que se derrama De ti a mim, dizendo: hora da cama. Tira o espartilho, quero descoberto O que ele guarda, quieto, tão de perto. O corpo que de tuas saias sai É um campo em flor quando a sombra se esvai. Arranca essa grinalda armada e deixa Que cresça o diadema da madeixa. Tira os sapatos e entra sem receio Nesse templo de amor que é nosso leito. Os anjos mostram-se num branco véu aos homens. Tu, meu Anjo, é como o Céu De Maomé. E se no branco têm contigo Semelhança os espíritos, distingo: O que o meu Anjo branco põe não é O cabelo mas sim a carne em pé.
(CONTINUA ABAIXO)
Escrito por Claudio Daniel às 08h31
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Deixa que a minha mão errante adentre Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre. Minha América! Minha terra à vista, Reino de paz, se um homem só a conquista, Minha Mina preciosa, meu Império! Feliz de quem penetre o teu mistério! Liberto-me ficando teu escravo; Onde cai minha mão, meu selo gravo. Nudez total! Todo prazer provém De um corpo (como a alma sem corpo) Sem vestes. As jóias que mulher ostenta São como bolas de ouro de Atalanta: Os olhos do tolo que uma gema inflama Ilude-se com ela e perde a dama. Como encadernação vistosa, feita Para iletrados, a mulher se enfeita; Mas ela é um livro místico e somente A alguns (a quem tal graça se consente) É dado lê-la. Eu sou um que sabe; Como se diante da parteira, abre-Te: Atira, sim, o linho branco fora, Nem penitência nem decência agora. Para ensinar-te eu me desnudo antes: A coberta de um homem te é bastante.
(Tradução: Augusto de Campos)
Este poema foi musicado por Péricles Cavalcante e gravado por Caetano Veloso no disco Cinema Transcendental. É uma das cinco elegias que foram censuradas nas primeiras edições das obras completas do poeta, publicadas após sua morte. Quem quiser saber mais sobre o autor, leia Verso Reverso Controverso, de Augusto de Campos, que saiu há tempos pela Perspectiva (onde? na coleção Signos, oras bolas!). Há também uma edição tipográfica belíssima, feita por Kleber Teixeira, da Noa Noa, chamada John Donne, o Dom e a Danação, que saiu em 1980, com tiragem de 530 exemplares. Sou um dos felizardos que possuem esta jóia (e antes que peçam: não vendo, não empresto e não dou).
Escrito por Claudio Daniel às 08h31
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MAGIA PELA IMAGEM

O poeta inglês John Donne (1572-1631)
Fixo meu olho no teu olho e flagro uma
Sombra de mim queimando no teu olho.
Meu retrato afogado numa lágrima
Logo abaixo recolho.
Se entendesses de imagens e magias
Com minha imagem nas pupilas frias
De quantos modos tu me matarias?
Tuas lágrimas sorvo, doce humor,
E ainda que outras caiam, vou deixar-te;
Meu retrato se esvai, vai-se o temor
De ser enfeitiçado por tal arte;
Só reténs, afinal
Minha imagem num único local:
Teu coração, livre de todo o mal.
(Tradução: Augusto de Campos)
Escrito por Claudio Daniel às 08h21
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PARTE OITO
Poética de fraturas, concisa e elíptica, operando nos limites entre o som e o silêncio: este é o ponto de partida de muitos poetas novos, que começaram a escrever inspirados pelo minimalismo, presente em maior ou menor grau em boa parte da poesia moderna (e que atingiu seu ponto máximo na arte concentrada de e. e. cummings, nas primeiras décadas do século XX). A fala reduzida, inenfática, foi uma reação à retórica, ao lirismo, ao excesso discursivo; e também uma forma de explodir a sintaxe linear, pela associação mais analógica do que gramatical das palavras, tratadas como elementos sonoros ou visuais, não raro operando um deslocamento entre o som e o sentido. Essa poética de contornos mínimos é visível, em especial, na obra de autores como Carlos Ávila, Ronald Polito, Régis Bonvicino, Júlio Castañon Guimarães (que depois passou a empregar estruturas mais complexas, sobretudo em Práticas de Extravio) e Jorge Lúcio de Campos, este último operando uma curiosa síntese entre a fragmentação e a imagética visionária, quase surreal.
Dentre os poetas mais jovens, é preciso citar Virna Teixeira (que publicou neste ano o livro Distância), André Dick (autor de Grafias e Papéis de Parede) e Fabiano Calixto (autor de Fábrica, e que logo lançará Música Possível). Todos os três começaram a publicar em meados dos anos 90 na revista Monturo (editada pelo também poeta Tarso de Melo), que divulgou entre nós a poesia norte-americana recente. É preciso ressaltar a qualidade da produção desses autores, que inseminaram na forma reduzida suas vivências, obsessões e leituras, produzindo obras consistentes e pessoais. Porém, devemos apontar também o fato de que esta tendência logo apresentou sinais de esgotamento, pela repetição excessiva dos mesmos procedimentos por um número crescente de jovens autores. A informação nova exauriu-se, impondo o desafio de busca de outras estruturas e procedimentos (que já podemos verificar, por exemplo, nos notáveis poemas em prosa escritos por Virna Teixeira, inspirados na fotografia de Nan Goldin). Talvez um desafio para a criação poética hoje seja a descoberta de formas mais densas e extensivas, mas mantendo o princípio da economia, da concentração e do cálculo preciso dos efeitos.
(CONTINUA ABAIXO)
Escrito por Claudio Daniel às 08h21
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