Cantar a Pele de Lontra


(Who are thou white face?, de Leonora Carrington.)

 

 

NEMÉIA

 

invunerável leão de neméia  ferido por uma flecha de sangue. encurralado em seu próprio antro. matá-lo. e comer toda carne crua. vestir-lhe a pele nua desenhando uma poesia ditirâmbica, tragédia, comédia em  dionísia urbana. livre. abraçar a divindade masculina. esguia. gerar o seu filho e abandoná-lo.agora. cavalgar um dorso num campo de trigo, onde as espigas não se curvem.

 

 

CACOS HUMANOS

 

a unha cega desfolha a sua camada queratinizada de esmalte laranja. revestida de porcelana manga, uma lasca de vidro entalhado. contaminados os olhos vomitam as alegorias aos sábados, enquanto a bulimia da dor e do amor traduz a vida na pia do banheiro. mas a falta de perspectiva e os embolados extratos bancários continuam derramando todos os cabelos, que entopem os ralos ou prendem-se ao espelho. medos: cacos humanos expostos num vaso gris.

 

 

(Poemas de Adriana Zapparoli, que estará presente na sexta edição da Et Cetera.)



 Escrito por Claudio Daniel às 08h40





QUANDO A COBRA MORDE O PRÓPRIO RABO

 

 

 Caros, recebi o quinto número da revista Oroboro, editada em Curitiba por Ricardo Corona e Eliana Borges. Esta edição traz um dossiê dedicado ao poeta e músico mineiro Ricardo Aleixo, com entrevista, ensaio e poemas inéditos, além de traduções do poeta africano Jean-Joseph Rabearivelo, Paul Celan e inéditos do poeta carioca Jorge Lúcio de Campos. Uma bela edição. Outras novidades: a revista Coyote está no forno, trazendo um dossiê dedicado à poeta cubana Reina Maria Rodriguez (que preparei junto com o Ademir Assunção). E também está para sair a nova Et Cetera,  com poemas de Franklin Alves, Adriana Zapparoli e traduções de Lorine Niedecker, entre vários outros finos aperitivos. A Coyote é uma publicação de Londrina; a Oroboro e a Et Cetera, de Curitiba; parece que as revistas literárias mais interessantes, hoje, são made in Paraná. E antes que me acusem de bairrismo: sou paulistano da gema.

 

Ciao,

 

CD 



 Escrito por Claudio Daniel às 09h30
 




 (Temple of the world, de Leonora Carrington)

 

EPIDERME EXILADA DE SI (2ª. versão)

 

Nenhum sol, minério ou latência do casulo:

só o silêncio duplicado em orquídea,

occipital do neblí que desinventa a metáfora

de uma estrela.



 Escrito por Claudio Daniel às 08h50
 




(The temptation of Saint Anthony, de Leonora Carrington.)

 

 

FATA MORGANA

 

A estranha irmã viaja em púrpura:

pincela céu de sóis tatuados.

Galhos amorfos; rumor de lagartos;

fungos e olhos espectrais.

Com a espátula-tiara de relâmpagos,

remove o rosto pálido das horas.

Desfaz a pedra e o grilo.

Afunda em jade negro pétala e pégaso,

páramo e pássaro, piano e (púbis) pústula.

Até o limoso escárnio  do Insaciado,

unívoco, unívoro, uníssono.



 Escrito por Claudio Daniel às 10h45
 




GAVITA, GAVITA (II)

 

 

(The lovers, tela de Leonora Carrington)

 

 

(houve) (um tempo) (em paris) (em que fui) (o rei) (do haxixe.) (todas) (as moças) (amavam) (minha face) (de príncipe) (etíope,) (atlante) (ou cenobita.) (eu usava) (uma gravata) (vermelha,) (flor) (de cardo) (na lapela) (e bigodes) (espessos) (de mongol.)  (é tão distinto) (ser) (um poeta) (maldito.) (meus versos) (encantavam) (insólitas) (platéias) (ao som) (monótono) (do piano) (estrangulado.) (alguém) (de suíças) (platinadas) (desenhava) (haréns) (de divas) (marroquinas.) (um outro) (de denso) (cavanhaque) (e nariz) (encurvado) (discutia) (platão) (e plotino.) (mulheres) (de seios) (rosados) (entoavam) (árias) (de concerto.) (havia) (pratos) (refinados) (de atum) (e salmão,) (garrafas) (de vinho) (espanhol) (e cheiro) (forte) (de fumo) (africano.) (eu era) (o rei) (do haxixe,) (até) (certo dia,) (quando) (fui surrado,) (como) (um) (escravo,) (cuspido) (e) (atirado) (para fora) (dos salões,) (como) (um corcunda,) (leproso,) (bufão.) (senhores,) (vejam,) (ali) (vai,) (célere,) (espavorido,) (o) (macaco) (cantante.)

 

(Do Romanceiro de Dona Virgo)



 Escrito por Claudio Daniel às 11h46
 




GAVITA, GAVITA

(The meal of Lord Candlestick,  de Leonora Carrington)

 

 

ela está enfeitiçada, e me apavora. eu sorvo sua treva, e afundo em visões de taumaturgo. insano, febril, como quem fuma visões de navios e cetáceos, desenho portais de estranhos labirintos, dragões de esquecida tapeçaria, sinos de catedrais submersas. vejo a noite decapitada. ouço a chuva que cai, tênue como o som de um cravo metafísico, remota sonata para medo e medula, no patíbulo das horas. recordo seus olhos de cravos e cravinas. seus olhos de uma tarde em setembro, quando havia um céu de seda e o apito do trem na estrada de ferro. eu via suas mãos crescendo como ventosas, os lábios de estilete, o corpo querendo voar. meninos morenos corriam na estação, sombrinhas e sobretudos criavam asas, uniformes e tabaco gritavam em cinza, um topázio virava uma estrela. esta foi a tarde azul da metempsicose.

 

(Do Romanceiro de Dona Virgo, Lamparina, 2004)



 Escrito por Claudio Daniel às 08h26
 




DIÁRIO DO VINGADOR MASCARADO

Caros, pois é, o Movimento Literatura Urgente continua incomodando algumas pessoas. Todos parecem estar de acordo que as editoras recebam incentivos fiscais, ou que participem de licitações para a venda de livros a escolas e bibliotecas públicas (eu também estou de acordo, pois isso facilita a produção e distribuição dos livros). Porém, quando se trata de discutir políticas de incentivo à criação literária, aí a coisa muda de figura. Claro: o escritor deve trabalhar de graça (ou até pagar para publicar seus livros); apenas editores, livreiros e distribuidores têm direito às fatias do bolo; para nós, só a fama e a musa, quando muito. Essa é uma posição equivocada, para não dizer burra, já que o incentivo à criação literária, prática comum nos Estados Unidos, na Europa e no México significa estimular o processo geral de criação, produção e distribuição de livros, além de ampliar o público leitor, a partir da aproximação entre os escritores e a comunidade (por exemplo, via debates e conferências nas universidades). Só não enxerga isso quem não quer, ou tem interesses mesquinhos. Tudo bem haver discordância; porém, quando os argumentos cedem vez à maledicência e à calúnia, aí o caso é grave. Foi o que aconteceu com o Ademir Assunção, acusado injustamente de ter “falsificado” (?!) a assinatura de Elvira Vigna no documento entregue ao Ministério da Cultura. Essa suposta “denúncia” foi divulgada, com estalhadarço, no blog de Cora Ronai. Pois bem, Ademir localizou o e-mail em que Elvira Vigna solicitou a inclusão de seu nome no documento e o enviou à própria (que lamentou a “confusão” cometida), além de responder a Cora, em seu próprio blog (resposta que foi “democraticamente” deletada). Bueno: vocês podem conferir mais detalhes no blog Espelunca, do Ademir Assunção, no endereço http://zonabranca.blog.uol.com.br. Quem quiser discordar do movimento, fique à vontade; mas apresente argumentos, e não calúnias. FUI,

CD



 Escrito por Claudio Daniel às 14h47
 




DIÁRIO DE UM ESCAFANDRISTA

Caros, estou relendo um ótimo livro, Oriki Orixá, do Antonio Risério, poeta e antropólogo baiano, estudioso da cultura afro-brasileira. Neste belo volume, publicado pela editora Perspectiva, na coleção Signos, o autor trata da poesia oral, cantada, de origem religiosa, das tribos nagô-iorubás, que sobrevive ainda hoje nos rituais de candomblé. Além de um estudo em profundidade sobre essa arte que une a palavra, a música, a dança e o sentido do sagrado, Risério apresenta também uma pequena antologia de orikis, traduzidos diretamente do original, seguindo os princípios da recriação poética (ou seja, buscando não apenas o sentido literal, mas sobretudo a poeticidade dos textos, em português).  Recomendo a leitura.

O que mais? A Claudia Roquette-Pinto, uma das vozes mais fortes da poesia brasileira,  está lançando um novo título, Margem de Manobra. Vou buscar o meu exemplar, pois acompanho o trabalho dessa moça há muitos anos, com interesse. A revista Oroboro dedicou um belo dossiê a Claudia, em sua quarta edição. Falando nisso, aliás, o quinto número da publicação será lançado agora em setembro, desta vez com dossiê sobre Ricardo Aleixo, poeta, músico e artista plástico mineiro, que esteve em Sampa no evento Outros Bárbaros.  Rick é outro autor da prateleira de cima, que merece ser lido com atenção.

Ufa! Já falei dos eventos? Acho que ainda não. Nos dias 24, 25, 26 e 27 de agosto, acontecerá o tradicional Perhappiness, em Curitiba, uma festa literária anual, inspirada em Paulo Leminski, que neste ano contará com a participação de Rodrigo Garcia Lopes, Sérgio Cohn, Ricardo Corona, Vítor Ramil, Sylvio Back, entre outros. E nos dias 16, 17 e 18 de setembro acontecerá o Festival Literário de Londrina, no qual estarei presente, falando sobre a Zunái (que está atrasada, sim, mas deverá entrar on line nas próximas semanas). Que mais? A revista Coyote já foi para a gráfica, e com um caderno especial dedicado à poeta cubana Reina Maria Rodríguez. Voltarei a estes assuntos, mais para a frente. Well, está de bom tamanho por hoje, não? Ciao,

CD



 Escrito por Claudio Daniel às 08h14





INSCRIÇÕES PARA UMA TERÇA-FEIRA

  

A MEMÓRIA

 

Desabitar os fêmures, os tendões

do que obceca; saber as grafias

cambiáveis, para uma paisagem

de dissoluções. Pintar no agave

nadadeiras de cetáceo (dentes-

de-leão); se flamingo (caramujo),

desenhá-lo, redesenhá-lo em sais

de nitrato de prata. Desmanchar

a orquídea, em partitura de caveira

cantante. Desfibrá-la (a memória),

para suportar a estratégia do escuro.

 

 

(Poema de minha nova safra, para futuro livro...)



 Escrito por Claudio Daniel às 08h47
 




EM TORNO DA LAGOA DOS OLHOS DA NOITE

 

    Arlindo Barbeitos

 

 

EM TEUS DENTES

 

Em teus dentes
o sol
é diamante de fantasia
a lua
caco-de-garrafa
e
a mentira
verdade vagabunda
errando de cágado
em torno da lagoa dos olhos da noite
na treva aveludada
de tua pele
os dedos curiosos
são estrelas de marfim
à busca
de um dia caprichoso
despontando de miragem
por detrás das corcundas de elefantes adormecidos

 

 

SAUDADE

saudade
é o tempo de pacassas pardas
e macacos sem rabo servindo de administradores
quando o calor ia derretendo o céu
e a chuva se vendia na farmácia
do comerciante de cabelos de fio
saudade
é o tempo de patos bravos
e macacos sem rabo servindo de padres

quando o medo ia gelando a terra
e o pranto se dava de beber aos porcos
do comerciante de cabelos de fio

 

 

VEM E VEM

escuras nuvens grossas de outros céus vindas
entrançando-se por entre asas de pássaros canibais
e
chuva de feiticeiro
em sopro
de arco-íris dependurada

irmão
vem vem
escuras nuvens grossas
temem o sol de nossos olhos todos
pássaros canibais
a garra de nossas mãos todas
e
chuva de feiticeiro
se perde no ar de nossos copos todos
irmão
vem vem

  

(Poemas do angolano Arlindo Barbeitos) 



 Escrito por Claudio Daniel às 08h31





MAMA ÁFRICA

 

(O poeta angolano Ruy Duarte de Carvalho)



 Escrito por Claudio Daniel às 08h26
 




DIÁRIO I

 

... o lagarto parado no verde recente da espinheira em frente: as expressões comuns a tudo o que está vivo: procriação, fome, orientação...

 

 

... faz de morto o escaravelho, se agredido, posto de costas espera dobrado, depois esbraceja até virar-se, quando encontra o jeito. Assume então, de novo, o rumo da viagem que trazia.

 

 

(de Ordem de esquecimento – 1997).

 

 

(Poemas de Ruy Duarte de Carvalho)  



 Escrito por Claudio Daniel às 08h25
 




ORDEM DE ESQUECIMENTO (trechos)

3

 

Aqui estamos na margem, na zona da maré, as águas vêm na oscilação que é delas, estão tão depressa a cativar-nos vivas como se afastam, e nós vidrados na impressão dos passos, só talvez de vez em quando e raramente atentos às mudanças, mas já nos surpreendem novamente, porque olha, sobem, sobem de novo as águas, não te demores muito, achá-las-ás de novo a desfazer as marcas, enquanto avanças, mas não o rastro, que é cedo ainda para deixá-lo impresso. O mar acorda se a atenção lhe acena. Tal qual lembranças te mantinham viva sem que o comércio as mantivesse acesas.

 

 

8

 

Cruel é o camarão tanto se dar ao esforço da comida com

tanta perna a pedalar no limo, a filtrar o céu das águas

 

 

Reter em cada sorvo

não mais do que além do que a milésima porção do seu

tão leve corpo,

ainda assim pesado, difícil de suster, e trabalhoso.

 

 

Melhor é o leão só carecer do vento que anuncia a caça,

erguer o olhar, aferir o curso da manada, lenta ao seu

encontro e à margem do alcance, explodir a massa

muscular

rasgar a chana a floração avulsa de uma ferida quente.

 

 

Para além disso, breve audácia, o leão namora e dorme.

 

 

Habita o cio.

 

 

(Poemas de Ruy Duarte de Carvalho)



 Escrito por Claudio Daniel às 08h24





OM MUNI MUNI MAHA MUNI SHAKYA MUNI SOHA

O buda histórico, Sidharta Gautama.

 

 

Caros, hoje irei ao Itaú Cultural, ver a apresentação de Rodrigo Garcia Lopes e Artur Gomes, no ciclo de música e poesia Outros Bárbaros, que já citei aqui. O programa todo é do balaco, mas infelizmente não poderei ir todas as noites (que saudades do meu tempo de jovem boêmio irresponsável...). A pesquisa sobre a poesia angolana contemporânea continuará nesse blogue; tenho descoberto autores que me interessaram muito. Sinto certa afinidade pelas poéticas de países ditos “periféricos”, como o Peru, o Uruguai, Macau, Moçambique, que têm uma vitalidade e uma força expressiva que contrastam com a palidez funerária de certos cânones acadêmicos, tão valorizados por aqui... leiam abaixo os poemas do angolano José Luís Mendonça e tirem as suas próprias conclusões... ciaozim,



 Escrito por Claudio Daniel às 08h28
 




A CICATRIZ DO GESTO ONDE SE EXILA

 

(O poeta angolano José Luís Mendonça)

 

 

ANOITECE

 

Anoitece. Sou um caminho
sentado sobre o sentir-me
pedra, oiro e sangue.
Os dias regressam à sombra
do meu verso afiado.
Velhas de panos riscados
esquecem tabaco na esteira
branca do meu coração.
Anoitece sobre o sentir-me
pedra, oiro e sangue.

 

 

DE GRAVATA

 

Homens de gravata à beira-rio
comem mangas geométricas sentados
sobre os rins do meio-dia.

Uma negra sereia aos pés dos homens
come os rins do meio-dia carcomidos
pelas mangas de gravata à beira-rio

 

 

UM CANTO PARA MUSSUEMBA

 

Ó mãe dos gafanhotos
sentados na lavra da boca deserta:
quantos comboios pariu a tua fome
sobre tijolos gravados ao corte da língua?
O abecê do tempo sangra no pilão
e a chuva de Abril nos cafeeiros
é a mulher kilombo, dizem
morreu um leão no fogo do teu ventre
onde caminhei de animais na mão.

 

 

ANJO DIALÓGICO

 

Me alimento dos claros instrumentos
da água venal das estações
tectos de zinco calcinados
onde a chuva de Setembro polariza máscaras
de um reino mitigado por erosões de tristeza, pó & consternação
Alguns sulcos de emoção asseguram-me este lugar
de anjo dialógico num país de náufragos
engenhos de olhar e ouvidos arrancados
pelo refinamento de submarinos pássaros
São estas palavras a poeira
que a língua bebe à boca do vento
a cicatriz do gesto onde se exila
a escrita de virilhas ao sol

 

(Poemas de José Luís Mendonça)



 Escrito por Claudio Daniel às 08h26
 




OM TARE TU TARE TURE SOHA

Tanka tibetana representando Tara, Buda feminina da compaixão.



 Escrito por Claudio Daniel às 08h41





ONDE O DRAGÃO DAS NOVE CURVAS MERGULHA

 

 Jorge Arrimar, poeta angolano radicado em Macau.

 

 

Mutação

 

No centro do casulo

lânguidas borboletas

são expulsas

da larvar gelatina.

Nos liames da mutação

as folhas perdem a cor

por entre os pontos verdes

de um bordado de filigrana

e a espuma dá lugar

à metamorfose

 

 

No jardim de Lou Kau

 

Estou ali no jardim de Lou Kau

com os olhos escondidos

entre ruínas de pedra

e musgo pisado

onde o dragão das noves curvas

mergulha no lago

dos nenúfares que os peixes modelam

com pedaços de miolo de pão

 

no lago onde crianças e velhos

alimentam peixes à mão

 

(Poemas de Jorge Arrimar)



 Escrito por Claudio Daniel às 08h38





ROMPENDO O SILÊNCIO

 

Hoje, vou dar um pulo até a Casa das Rosas para assistir a um bate-papo com Ademir Assunção, dentro do ciclo “Rompendo o silêncio — projeto de estudo e debate da poesia contemporânea”.  O evento começará às 20h, e o endereço vocês estão carecas de saber, Av. Paulista, n. 37.  Depois, ao longo da semana, o Itaú Cultural apresentará a série de shows poético-musicais Outros Bárbaros, que já noticiei aqui (ver abaixo).  O que mais? Ando lendo livros estranhos. Ouvindo músicas estranhas. Vendo filmes estranhos. Tendo sonhos estranhos, com mulheres estranhas. Porém, hoje, fiz a barba e contei todos os meus trinta e cinco dedos, estavam todos lá.



 Escrito por Claudio Daniel às 09h15
 




 

O poeta angolano Abreu Paxe.

 

 

 Escolheu por eleição a poesia, por quê?

Porque eu gosto do inconcluso, gosto do infinito, do espaço, coisas largas. A prosa esgota as coisas. A poesia abre espaço, abre outros mundos, desenvolve-nos outras dimensões. Portanto a poesia para mim é isto: é a realização, o indefinido, o inconcluso, o sempre, sempre e o eterno.

(Da entrevista do poeta a Aguinaldo Cristóvão, disponível na página http://www.uea-angola.org/destaque_entrevistas1.cfm?ID=346)



 Escrito por Claudio Daniel às 08h38
 




CORPO CEGO TEXTO

 

EM SEXO LIVRE A LÍNGUA

 

entre as trevas e a seiva da sintaxe abundam palavras
inofensivas nada dizem à pátria por imitação os impérios
renovam os aspectos os tempos os modos
outro soldado emergia
unia a habitação a fonética e a fonologia ao sol de casa
pirâmides e intervalos o corpo cego texto
regenera cidades por visitar falida interacção
as meninas árvores nocturnas com portas e janelas polares
tudo treme sobre o papel a mesma travessia dispersa tudo

 

 

DILATADA MEMBRANA

 

a planície duas palmeiras o corpo sorrindo
portas inacessíveis colchões o hemisfério
estradas e cidades as feridas do espectáculo
crepitam entre as suturas da colina
nascem janelas emergentes desfiles outra luz

 

 

TALVEZ DOBRADO AZUL

 

não é verdade talvez me esqueça velhíssimo do cansaço
debaixo do pé um sinal revés no cimo a boca
só a boca a alcançar a porta morta nas luzes tristes destes
lábios

 

(Poemas de Abreu Paxe) 



 Escrito por Claudio Daniel às 08h37





PALAVRAS VÍSCERAS

 

JANELAS OS DEGRAUS SOMBRAS

 

corpo vago a sombra deitadas palavras
vísceras os profundos dias
adolescentes festejos mais escuras as ferrugens onde pernoitava
para sobreviver sossegava os corpos nas persianas
longa estrada amanhece o sangue cansado espelho o pé
paralisado talvez seja degrau as oceânicas sombras
deste país abre os mares oca vontade o mesmo passo à luta

 

 

DIMENSÕES OSSIFICADAS CHAVES

 

a chave treme no repouso da porta a janela ronda
pequeno porto tudo dispersa apesar da ruga inglesa
as persianas estradas paredadas em negrito partes
sufocadas voltam em gestos
confusos sem lâmpadas dormia a criança
na inscrição falava umberto saba vivo a um povo
de mortos possesso certamente
mal conhecido destroço no sul da ilha
perfurado céu metálico mar as raízes desta estalagem
telegráficos beijos espessos numerosos lábios
perdiam as chaves adormece na mesma semana
outra mão à direita unia as pálpebras
ao tecido germe ossificadas chaves sem portas

 

(Poemas de Abreu Paxe) 



 Escrito por Claudio Daniel às 08h36
 




OITO E MEIO

O filme mais perturbador do mestre italiano?



 Escrito por Claudio Daniel às 13h36
 




DEPURAR

Depurar a paisagem manuscrita,

seu árido vocabulário de fraturas.

Onde cada figura musical delineia

um animal desconhecido: animal

porque obscuro, entre rasurado

e ambíguo. Ler na pele do carneiro

a oblíqua sentença do desenlace

(seqüência de corvos e equívocos)

até borrar os planos da agrimensura

em cor amorfa, membrana devoluta. 



 Escrito por Claudio Daniel às 13h33
 




ADEMIR ASSUNÇÃO & OS OUTROS BÁRBAROS

 

 

O poeta Ademir Assunção estará na Casa das Rosas para um bate-papo sobre o seu trabalho literário na próxima terça-feira, dia 16 de agosto, às 20 horas. Ele é autor livros como LSD Nô, Zona Branca, Máquina Peluda, Cinemitologias e Adorável Criatura Frankenstein, além do CD de música e poesia  Rebelião na Zona Fantasma. Seu trabalho de pesquisa parte da leitura de autores contemporâneos, como Burroughs e Leminski, mas também da música popular, do cinema, das histórias em quadrinhos e do estudo das tradições indígenas e africanas. Ademir é um cara que sabe que, “para ser poeta, é preciso ser muito mais do que poeta”, como dizia o Polaco. O endereço da Casa das Rosas vocês já sabem: Avenida Paulista, 37, pertinho do metrô Brigadeiro. E a semana poética continuará com a série de shows no Itaú Cultural, coordenada por Ademir, chamada Outros Bárbaros, com recitais poético-musicais ao som de muito blues e rock and roll. Confira a programação abaixo. O endereço do Itaú Cultural é  Avenida Paulista, 149, e os eventos começam às 19h. A entrada é franca, mas é preciso retirar os ingressos com antecedência. Os bárbaros estão soltos na cidade, e uivando. Vocês vão perder essa? Eu não vou, não.

 

 

17 de agosto (quarta-feira)

Celso Borges

Frederico Barbosa

 

18 de agosto (quinta-feira)

Arthur Gomes

Rodrigo Garcia Lopes

 

19 de agosto (sexta-feira)

Marcelo Montenegro

Chacal

 

20 de agosto (sábado)

Ricardo Aleixo

Ademir Assunção



 Escrito por Claudio Daniel às 09h42





Pós-tudo, poema de Augusto de Campos.



 Escrito por Claudio Daniel às 13h16
 




POESIA CONCRETA BRASILEIRA

 

Caríssimos, anotem na agenda: no dia 18 de agosto, quinta-feira, a partir das 19h, será o lançamento do livro Poesia Concreta Brasileira: As Vanguardas na Encruzilhada Modernista, de Gonzalo Aguilar, publicado pela Edusp. Onde? Na Casa das Rosas, oras, bolas (e onde mais seria?), na Avenida Paulista, n. 37, pertinho da estação Brigadeiro do metrô. Estarão presentes, apresentando o livro, além do autor, os professores de Literatura Hispano-Americana da USP Ana Cecília Olmos e Jorge Schwartz. Mais informações pelo tel. (11) 3285-6986. Na edição de dezembro da Zunái, publicaremos um ensaio sobre os 50 anos da Poesia Concreta, único movimento de vanguarda nascido no Brasil com repercussão internacional. Quem estiver interessado pode ler a entrevista que fiz com o poeta Augusto de Campos, na página http://www2.uol.com.br/augustodecampos/links.htm



 Escrito por Claudio Daniel às 13h14
 




NOITES DE CABÍRIA

 

(Outro filmaço do mestre italiano...)  



 Escrito por Claudio Daniel às 08h46





A VOZ DO ENCANTATÓRIO

 

Reynaldo Jiménez (Lima, 1959) é o poeta do sensorial, cultor de estranhas partituras que evocam a pele do musgo, a sombra do marsupial ou a noturna irrupção de amarelos. Ninguém se iluda com esses poemas escavados na rocha (ou ainda, no espaço movediço do barro): existe a alucinação, o espraiar-se de simulada demência, mas também o daimon da composição, que ordena as figuras com rigorosos compassos e esquadros. Ele é o herdeiro hispânico das cabalas de Rimbaud e Mallarmé (lembremos o adágio sobre “o poder encantatório das palavras”), das bizarrias plásticas de Lautréamont; porém, essa excêntrica imagética é articulada numa sintaxe voluntariamente artificial ou hermética, construída segundo uma lógica musical que converte as palavras em células melódicas e rítmicas (de uma aspereza lírica que se choca com o próprio conceito de lirismo). As referências imediatas dessa sintaxe analógica são, é claro, Góngora, Quevedo e el brujo Lezama; é habitual inserirmos o autor na seara barroquista, e com certa razão. O que diferencia Jiménez de seus confrades, talvez, seja a maneira como ele recria o espanhol, como se intentasse a criação de outra língua, mestiça e porosa.

 

 

(Fragmento do prefácio do livro Shakti, antologia com traduções de Reynaldo Jiménez que organizei para a editora Lumme, a sair em setembro. Leia a entrevista que fiz com o poeta na Zunái, na página http://www.revistazunai.com.br/entrevistas/reynaldo_jimenez.htm.)  



 Escrito por Claudio Daniel às 08h44





LA DOLCE VITA

 

Filme de Fellini que revi por esses dias. Uma lição de cinema. Belíssimo.



 Escrito por Claudio Daniel às 08h25
 




DIÁRIO DE UM VIAJANTE

 

Recebi, há poucos dias, o segundo número da revista literária Gazua, editada por um grupo de jovens poetas de Fortaleza: Eduardo Jorge, Diego Vinhas, Henrique Dídimo e Júlio Lira. A publicação apresenta bons resultados, pelo rigor e critério na escolha de autores e textos,  privilegiando as linhas experimentais e dialogando com a literatura da América Latina. A entrevista com o poeta León Félix Batista, da República Dominicana, ficou excelente. Outros destaques deste número são os poemas de Victor Sosa, Fabiano Calixto, Glauco Mattoso, Lígia Dabul e Virna Teixeira. Quem quiser adquirir a publicação pode escrever para r_gazua@yahoo.com.br. O que mais? Logo, logo vou fazer as malas, para nova temporada de eventos poéticos. Fui convidado a participar do Festival Literário de Londrina, que acontecerá de 16 a 18 de setembro; na ocasião, estarei falando sobre o trabalho desenvolvido com a Zunái. E claro, aproveitarei para trocar figurinhas com Rodrigo Garcia Lopes, Marcos Losnak e Maurício Arruda Mendonça (você vai lá, né, Ademir?). Já em outubro,  irei a São Bernardo do Campo, participar do módulo “Fala, Revista!”, do projeto Outras Palavras, e ainda a Florianópolis, para um debate no II Simpósio Nacional de Literatura e Informática. Há outros convites aguardando confirmação de datas; ao que tudo indica, o final de ano será bem agitado. Ótimo, estou precisando de um pouco de confusão e tumulto em minha vida.



 Escrito por Claudio Daniel às 08h21





George Trakl, poeta austríaco, nasceu em Salzburgo, em 1887. É um dos maiores nomes da poesia de língua alemã do século XX. Sua juventude foi marcada pela leitura dos poetas malditos franceses, como Rimbaud e Baudelaire. Consumidor regular de entorpecentes, nutriu paixão incestuosa pela irmã. Após diplomar-se em Farmácia, serviu no front em Grodek, durante a I Guerra Mundial, fato que o marcou profundamente, levando-o a uma crise de depressão e posterior  suicídio, por overdose de cocaína, em 1914. Deixou dois volumes de versos, Poemas e Sebastião em Sonho. Leia abaixo duas traduções de Trakl, feitas pelo português Paulo Quintela. No segundo número da Zunái, publicamos também algumas versões do poeta, feitas por André Vallías; você pode acessá-las na página http://www.revistazunai.com.br/traducoes/todos.htm



 Escrito por Claudio Daniel às 08h26
 




SALMO

 

Dedicado a Karl Kraus

 

Há uma luz que o vento apagou.

Há uma taberna que um bêbado à tarde abandona.

Há uma vinha, queimada e negra com buracos cheios de aranhas.

Há um quarto que caiaram de leite.

O louco morreu. Há uma ilha do mar do sul.

Pra receber o deus do sol. Rufam os tambores.

Os homens executam danças guerreiras.

As mulheres sacodem as ancas em trepadeiras e flores de fogo,

Quando o mar canta. Oh, o nosso paraíso terrestre.

 

*

 

As ninfas abandonaram os bosques dourados.

Enterra-se o peregrino. Então começa uma chuva tremeluzente.

O filho de Pã aparece em figura de um trabalhador da terra.

Que passa o meio-dia a dormir no asfalto abrasador.

Há rapariguinhas num pátio em vestidinhos cheios de pobreza de rasgar o coração!

Há quartos cheios de acordes e sonatas.

Há sombras que se abraçam em frente de um espelho baço.

As janelas do hospital aquecem-se convalescentes.

Um vapor branco traz canal acima epidemias sangrentas.

 

(Continua...)



 Escrito por Claudio Daniel às 08h23





*

 

A estranha irmã aparece de novo nos sonhos maus de alguém.

Descansando no avelanal ela brinca com as estrelas dele.

O estudante, talvez um sósia, olha-a langamente da janela.

Atrás dele está o seu irmão morto, ou desce a velha escada de caracol.

No escuro de castanheiros sombrios empalidece a figura do jovem noviço.

O jardim está mergulhado no crepúsculo. No claustro esvoaçam os morcegos.

Os filhos do porteiro param de brincar e buscam o ouro do céu.

Acordes finais de um quarteto. A ceguinha anda tremente pela alameda.

E mais tarde a sua sombra vai tacteando ao longo de muros frios,

Envolta em contos de fadas e lendas de santos.

 

 

*

 

Há um barco vazio, que ao anoitecer vai deslizando pelo canal negro.

Na escuridão do velho asilo decaem ruínas humanas.

Os órfãos mortos jazem junto ao muro do jardim.

De quartos pardos saem anjos de asas manchadas de lama.

Vermes gotejam das suas pálpebras amareladas.

A praça em frente da igreja está escura e calada, como nos dias da infância.

Em solas de prata deslizam vidas passadas.

E as sombras dos condenados mergulham nas águas soluçantes.

Na sua cova, o mago branco brinca com as suas cobras.

 

 

*

 

Silenciosos sobre o Calvário abrem-se os olhos dourados de Deus.

 

 

(Poema de Georg Trakl, traduzido por Paulo Quintela. Extraído da obra já citada.)



 Escrito por Claudio Daniel às 08h21
 



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