Cantar a Pele de Lontra


PARTE SETE

 

Há muitos caminhos para a invenção poética; não acredito num fio evolutivo em linha reta, ou seleção natural darwiniana, mas numa dialética das formas ou movimento em espiral onde muitas modalidades de ruptura e metamorfose são possíveis. A poesia concreta é uma referência importante, que deve ser estudada e levada em consideração, mas não para a sua continuidade, e sim como um dos pontos de partida para novas experiências com a palavra. Durante os anos 80 e 90, várias tentativas foram realizadas no sentido de dar uma resposta à crise da poesia brasileira. Alguns poetas realizaram procedimentos com a poesia visual; outros desenvolveram uma dicção de cunho barroquizante ou minimalista, e uma outra tendência optou por uma estética que podemos chamar de formalismo informal. Os poetas desse grupo partiram da experiência da vanguarda e da beat generation, sem desprezar a influência da publicidade, do rock and roll e das histórias em quadrinhos. Eles criaram revistas de poesia, como a K’an, Coyote e Oroboro, gravaram CDs com poemas cantados ou recitados e investigaram tradições indígenas e africanas, em busca de outras visões de mundo.

 

Dentro dessa linhagem, podemos citar autores como Ricardo Aleixo, que buscou inspiração no oriki, o poema ritual de origem iorubá, num livro notável chamado A Roda do Mundo. Ricardo também é músico e artista plástico, apresentando shows e performances com a Sociedade Lira Eletrônica Black Maria. Já Ademir Assunção pesquisou as relações entre o sonho, o cinema e o imaginário dos índios brasileiros, em livros como Cinemitologias e Zona Branca. Em 2005, lançou o CD de música e poesia Rebelião na Zona Fantasma, onde faz um interessante cruzamento de linguagens (convém citar aqui dois outros CDs, igualmente bem realizados: Ladrão de Fogo, de Ricardo Corona, e Polivox, de Rodrigo Garcia Lopes. Este último, aliás, é  autor de livros como Solarium e Nômada, onde dialoga de modo pessoal com as poéticas norte-americanas de linhagem withmaniana, de Allen Ginsberg a John Ashbery). Marcos Losnak, que edita a Coyote com Rodrigo e Ademir, é um poeta fascinado pelo grafite expressionista, pelas imagens de alto impacto. Embora pouco conhecido, merece ser lido com atenção. Seu livro Um urso correndo no sótão foi publicado em 2002, pela Ciência do Acidente. Em suma, temos aqui autores que vivem o tempo presente e buscam sintetizar uma soma considerável de referências em obras vivas que conversem com os vivos.

 

(CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA)



 Escrito por Claudio Daniel às 08h51
 




PARTE SEIS

 

Recusando a poesia coloquial centrada no cotidiano, praticada nos anos 70, mas desejando outros caminhos além da fragmentação e visualidade da Poesia Concreta, alguns poetas buscaram a saturação de imagens em linhas de elaborada construção sintática, não raro dissolvendo as fronteiras entre prosa e poesia. Estes autores são densos, e não temem a aproximação com o hermético e o barroco pela riqueza de léxico e mescla de referências culturais. Podemos incluir, nesta saudável nau de insensatos, poetas como Horácio Costa, autor de livros como Satori e O Menino e o Travesseiro; Claudia Roquette-Pinto, autora de Saxífraga e Zona de Sombra; Wilson Bueno, com sua notável novela poética Mar Paraguayo; e, com algum discernimento, Josely Vianna Baptista, que publicou Ar e Corpografia,  e Frederico Barbosa, nos livros Rarefato e Nada Feito Nada. Um outro poeta que a princípio poderia ser incluído nesse grupo é o Carlito Azevedo de Collapsus Linguae e As Banhistas (embora posteriormente seguisse outra concepção de poesia, mais domesticada). Todos estes autores têm dicções pessoais bem delimitadas; o que possuem em comum é o ideal de invenção da linguagem no campo da poesia verbal, investindo no arranjo inusitado das palavras, dialogando inclusive com experiências similares no âmbito latino-americano. Esta linhagem  barroquizante, enraizada na construção da linguagem (e antecedida pelo Haroldo de Campos de Galáxias e dos estudos sobre o barroco moderno e a obra de arte aberta) representa talvez o caminho mais consistente de pesquisa e experimentação em nossa poesia hoje, e tem manifestado ressonâncias, inclusive, em autores bem jovens, como o cearense Eduardo Jorge e a paulista Adriana Zapparoli. 

 

(CONTINUA)



 Escrito por Claudio Daniel às 08h51





PARTE CINCO

 

A poesia brasileira, na virada do século, buscou outros repertórios e manifestações simbólicas e culturais, além dos territórios conquistados pelas gerações anteriores. Os novos poetas leram  João Cabral e a Poesia Concreta, mas também autores como o cubano Lezama Lima, o português Herberto Helder e o romeno Paul Celan, em busca de novas possibilidades criativas. Além das referências literárias, eles foram seduzidos por aspectos da cultura pop, pelos recursos da Internet, pelo compact disc, buscando novas fronteiras para a palavra. Em contraponto a essa busca de paradigmas e meios tecnológicos, houve um ressurgimento do interesse pelas culturas tradicionais, como as sociedades indígenas e africanas, e também pelas formas de pensamento filosófico e religioso do Oriente.  Há uma pulsão de conhecer, integrar, digerir o que se faz de mais inventivo em matéria de linguagem, em outros climas e latitudes, superando as noções estreitas de certo deslocado nativismo. Todos esses elementos, ainda que parciais e precários, são suficientes para caracterizar a poesia brasileira dos anos 80 e 90 como uma arte mestiça, impura;  não há lugar, aqui, para uma única linha de força, mas para uma pluralidade de poéticas possíveis. Vamos analisar agora, de maneira sucinta, algumas dessas linhas criativas.

 

(CONTINUA)



 Escrito por Claudio Daniel às 08h50





PENSANDO A POESIA BRASILEIRA, PARTE UM

 

A poesia concreta provocou um abalo sísmico em nossa tradição lírico-discursiva, que já apresentava avançados sinais de mofo. Ela abriu novos caminhos para a comunicação poética, substituindo a sintaxe normativa e a lógica linear por outras possibilidades de grafia e leitura: um poema concreto pode ser lido na horizontal, na vertical, na diagonal, com os elementos visuais, as cores e o espaço em branco integrados ao som e ao sentido das palavras, dando uma nova potência ao verbo. Essa mobilidade desde logo chocou-se com os limites do objeto livro, exigindo outros suportes para sua veiculação (como o holograma, o móbile, o compact disc). Pois bem: ao explodir o verso, as estruturas e formatos tradicionais de nossa herança literária, o concretismo colocou a poesia brasileira em crise. “O que fazer depois disto?” é a pergunta que muitos fizeram, após a leitura de poemas como Tudo está dito, de Augusto de Campos (para não citarmos uma longa lista que poderia incluir outros exemplos de radicalidade inventiva, como o â mago do ô mega, de Haroldo de Campos, ou Mayá, de Décio Pignatari). Como avançar a partir daí? Com certeza, não havia a possibilidade de aprofundamento dos processos inaugurados pelos concretos, nas décadas seguintes (anos 60-70), pela escassez de meios tecnológicos. A capacidade imaginativa dos poetas ficou restrita pela ausência de novos suportes, que surgiriam apenas nos anos 90, com o computador e outras mídias eletrônicas. Não havendo condições de dar o passo adiante, a crise se traduziu no retorno às formas tradicionais, aceitas e canonizadas pela academia.

 

(CONTINUA ABAIXO...)



 Escrito por Claudio Daniel às 08h38
 




PARTE DOIS

 

Nos anos 70, assistimos ao retorno a uma dicção coloquial-cotidiana, derivada do Modernismo dos anos 30, com ênfase no poema-piada, na paródia e no poema-crônica-de-jornal, enfocando temas geracionais ou relacionados ao contexto político. Autores como Francisco Alvim, Cacaso, Armando Freitas Filho e Ana Cristina César (reunidos por Heloísa Buarque de Hollanda na antologia 26 Poetas Hoje) reciclaram procedimentos já esgotados por nossos modernistas. Basta fazermos uma comparação: colocarmos, lado a lado, um poema de Manuel Bandeira (de Estrela da Manhã, p. ex., de 1936), e compararmos com alguma peça de Francisco Alvim (Elefante, publicado em 2000). A comparação talvez seja cruel, pois Bandeira, quando usou os recursos do humor e da fala coloquial (via Jules Laforgue), fez algo inusitado (naquela época) em nossa poesia, tão acostumada à solenidade parnasiana; repetir os mesmos procedimentos setenta anos depois, porém, longe de ser algo provocativo e iconoclasta, revela antes uma postura resignada, conformista, de quem prefere seguir o caminho mais fácil: não responder ao enigma proposto pela esfinge, virar as costas e retornar a uma paisagem conhecida, mas de  imediata aceitação. Não por acaso, Alvim é considerado um “modelo para os novos poetas” (junto com Cacaso, Cisneros e Adília Lopes) para os autores que editam a revista Inimigo Rumor (e também para os editores de sua banda cover, a Cacto). Há quem prefira vender a primogenitura por um prato de lentilhas. Tudo é uma questão de escolha e risco.

 

(CONTINUA...)



 Escrito por Claudio Daniel às 08h37





PARTE TRÊS

 

A vertente coloquial-cotidiana, porém, não foi a única praticada nos anos 70. Convém destacar uma outra tendência, formada por autores que se deixaram influenciar por algumas contribuições do concretismo, mas buscando outros diálogos, com a música popular, a publicidade, a história em quadrinhos, a contracultura, o zen-budismo e o movimento beatnik. Autores como Paulo Leminski, Régis Bonvicino, Alice Ruiz, Duda Machado, Glauco Mattoso e Antonio Risério receberam a difícil tarefa de “dar por encerrado o ciclo histórico” da poesia concreta e avançar em outras direções, para a tão necessária renovação de águas. É possível reconhecer, nesses autores, o uso da gíria, a temática urbana, o humor, a economia verbal, o gosto pelo trocadilho e pelos jogos de linguagem, reconhecíveis em livros notáveis como Polonaises, de Leminski, Zil, de Duda Machado, ou Navalhanaliga, de Alice Ruiz (a poesia de Risério, publicada esparsamente em revistas, seria reunida apenas na década de 90, no livro Fetiche). Apesar das evidentes qualidades desses poetas, certamente os mais interessantes do período, eles pouco avançaram em relação à “poesia-minuto” de Oswald de Andrade e ao próprio concretismo. As criações mais inventivas dessa geração, a meu ver, ocorreram na canção popular (via Tropicália: p. ex., Torquato Neto, Wally Salomão) e na prosa de ficção (Catatau e Agora é que são elas, de Leminski). Já nos anos 90, após sua ruptura com o grupo concreto, Régis Bonvicino importou para o Brasil o minimalismo de Robert Creeley e da Language Poetry americana, presença explícita em livros como Ossos de Borboleta, aliás de ótima qualidade, que exerceu forte influência em dezenas de poetas jovens (influência que, sendo excessiva, acabou por gerar algo como a produção de automóveis em série: todos iguaizinhos, só se diferenciando pela numeração das placas). O que poderia ter sido uma retomada da vereda experimental em nossa poesia logo converteu-se em novo cacoete, com fórmulas prontas: linhas concisas e elípticas, em espaço duplo, com uso exclusivo de minúsculas, abundância de substantivos e poucos verbos (sempre no infinitivo), como um soneto pós-moderno. Esta forma de minimalismo não foi uma solução para a crise, mas outro sintoma da carência de novos meios de expressão.

 

(CONTINUA...)



 Escrito por Claudio Daniel às 08h36





PARTE QUATRO

 

Uma outra tendência iniciada nos anos 70, e que evoluiu até os dias de hoje, é a da Poesia Visual, representada por poetas como Arnaldo Antunes, João Bandeira, Lenora de Barros, Lúcio Agra, André Vallias e Elson Fróes, entre outros. A poesia visual (que ocorreu simultaneamente a experiências com a poesia sonora, a holografia e os happenings multimídia) retoma processos da vanguarda construtivista dos anos 50, mas talvez sem a mesma objetividade, economia de recursos e acabamento do poema concreto. Houve uma aproximação maior com as artes plásticas, e posteriormente com os meios tecnológicos, e em especial o computador e outras mídias eletrônicas (podemos lembrar da trilogia Nome, de Arnaldo Antunes, que integra livro, fita de vídeo e compact disc). Curiosamente, ao contrário de meados do século passado, hoje existem mais recursos disponíveis para a criação poética do que capacidade imaginativa por parte dos poetas; os novos meios oferecidos pela mídia eletrônica ainda não foram bem assimilados, possivelmente por motivos geracionais: os poetas conhecem bem a tradição livresca, mas ignoram quase tudo sobre multimídia, e os técnicos em informática desconhecem por completo a poesia. É possível supor que, dentro de uma ou duas décadas, as novas gerações possam unir o conhecimento dos livros com o manejo tecnológico, tendo condições ideais para desenvolverem poemas interativos, aprofundando as propostas das vanguardas históricas. Será essa, porém, a única via para a experimentação poética? Ou é possível prosseguir com o ideal de invenção no poema-texto? Sobre isso, falarei em breve, ao abordar a poesia dos anos 80 e 90. Até já,

 

Claudio Daniel



 Escrito por Claudio Daniel às 08h36
 




 

 

2ª. Via, poema de Augusto de Campos.

 

 

 

ENQUANTO ISSO, NA CASA DAS ROSAS...

 

Jacó Guinsburg estará na Casa das Rosas amanhã, quarta-feira, a partir das 20h,  participando do ciclo de palestras “Como e porque sou leitor”. O evento é imperdível. Para quem não sabe, o Jacó, além de editor da Perspectiva, é professor de Literatura Judaica na Universidade de São Paulo, tradutor, ensaísta, estudioso de teatro, enfim, um intelectual refinado, de vasta erudição e bom senso de humor. Foi um dos amigos mais próximos de Haroldo de Campos e o responsável pela existência da Signos, a melhor coleção de poesia editada no Brasil. Enfim, eu irei à Casa das Rosas, com toda a certeza, para ouvir o que Jacó tem a dizer. Preciso dizer o endereço? Avenida Paulista, n. 37, pertinho da estação Brigadeiro do metrô.



 Escrito por Claudio Daniel às 08h28
 




               

Horácio Costa, autor da antologia Fracta (Perspectiva, 2004). 



 Escrito por Claudio Daniel às 08h32
 




ARANHA NO SEU SER

 

Ragno nel suo essere, uma moldura dourada encoberta por, cornucópias, rocailles, tensões submersas em, pequenos orifícios braquinhos, grandes brasões afundados em, douraduras esvaídas que por sua vez encobrem a madeira talhada, a mesma madeira, a seiva e o sol de estações que secam, as mãos dos entalhadores, tudo coberto pela aranha no seu ser, no ser-aranha que fabrica teias, armadilhas, casulos, e tudo encobrindo o quadro, a grande pintura de referência, o cânone: aranha que trabalha sem pincelada de graça, sem pigmento de velha extração animal ou mineral, sem verniz de laca ou cera ou baba de outro material, aranha no seu-próprio sobre a obra-prima abandonada, ali no canto sob o estupor da canícula, quem já viu um julho como estes, quem já viveu tais estações sangrentas, acumulam-se os fios tênues sobre a superfície pictórica, o descobrimento de Moisés é já casulo, o olhar que o pede, puro engano, estratégias da aranha: o opacar, o impedir, não haverá quem revele o tema, o motivo da composição, nenhum limpador da rede de verdade sobre a representação: retórica,. Lugar da aranha ou de Moisés? Rubicundo, Vêmo-lo dissentir desta nova e maior deriva, deste chamamento à natureza e suas razões. Tema: és bebê dentro do molde, imagem que não perdura. E tu, aranha, dadora de males, provedora de escândalos turísticos, és a confortadora dos bons: como a leitura, dissipas sobre o ar os teus sentidos, a tua baba. Moisés flutua em outra dimensão, detrás da renda. Foste concebido em A. C. e pintado, com qual exatidão, por um revisor do acervo, alguém não exatamente, e à tua diferença, alegórico. Eis que a alegoria final se deu no tempo, neste que vivemos, e através da benvinda, necessária aranha.

 

 

(Poema de Horácio Costa, publicado no n. 0 da revista Et Cetera, em 2003.)         



 Escrito por Claudio Daniel às 08h28





Frederico Barbosa


 

MEMÓRIA SE

 

A mais íntima

memória se

desdobra cega

e surda:

 

a presença tátil

de suas dobras

incrustadas

nas marcas linhas

das minhas mãos.

 

O gosto redondo

do seu corpo

na retina língua

do meu gesto

ou rosto.

 

E seu perfume

rio riso colorido

escorrendo

sobre o corpo

sopro e calor.

 

Memória se

deseja. O resto,

se ouça ou veja.

 

 

(Poema de Frederico Barbosa, do livro Contracorrente)



 Escrito por Claudio Daniel às 14h45
 




 

 

 

STRASSENKINDER

crianças que miram espelhos
e giram as caras cansadas
onde narciso não é conselho
nem comboio acha a estrada

crianças de poucos pentelhos
de rubras roupas rasgadas
entre guinchos gosmas e relhos
orgasmos de putos no ralo

crianças de coxas vermelhas
no beco das bocas usadas
moeda e moenda dos grelos
nas fodas das doidas danadas

crianças que masturbam velhos
e chupam xotas grisalhas
lambendo o sangue dos medos
nos dedos grudando de gala

* * *

sob a navalha da ira
o sol se descola sagrado
que a vida por mais que me fira
não me verá conformado

 

 

(Poema de Antonio Risério, de Brasibraseiro, Landy, 2004, Prêmio Jabuti.)



 Escrito por Claudio Daniel às 08h30
 




Duda Machado, autor de Crescente.

 

 

MARGEM DE UMA ONDA

 

você entra no mar

mas é deserto

areia empredan-

do até os ossos

 

(ondas do mar de Vigo

como hei de estar contigo?)

 

mar que se diz deserto

mas onde água é ter nome

 

a uma onda extrema

quer te levar o poema

 

lá onde é tão difícil

estar — onde é sem nome

 

 (Poema de Duda Machado, do livro Margem de uma onda) 



 Escrito por Claudio Daniel às 08h27
 




ORAÇÃO COM OBJETOS

 

desconectados, imersos

na mais compacta exterioridade

 

já não se atingem

em seus próprios domínios

 

um mútuo desgarre

desterra as partes

que parem o mundo

 

— volta à superfície

ânimo

salve

 

definição vária

de seres, coisas, estares

 

alma do gesto que escolhe

olho que impele o toque

 

amor

me acolhe

 

 

(Poema de Duda Machado, do livro Margem de uma onda)

 

 

Leia também uma entrevista com o autor em http://www.libre.org.br/primavera/



 Escrito por Claudio Daniel às 08h26





 Claudia Roquette-Pinto

 

 

a Novalis

 

Ainda úmidas sobre a folha,

orvalho escuro que pousa

na pele, impiedosa e nua.

Mal desgarradas da pena,

cada pequena curva

tatua as idéias na superfície ácida.

Isso imagino,

se te vejo debruçado

sobre a mesa o penhasco

olho anoitecido

despencando no hiato convulso das ventanias.

Isso enquanto imprimo

os teus Hinos à Noite

nestas folhas ordinárias,

palavra por palavra coagulando

na brancura infinita, saídas

da boca da máquina

como uma carta pela fenda da porta,

duzentos anos mais tarde e

úmidas, ainda.

 

(Poema de Claudia Roquette-Pinto, que acaba de lançar Margem de manobra.)



 Escrito por Claudio Daniel às 08h30
 




SEBASTIÃO UCHOA LEITE, O POETA À BEIRA DA NAVALHA

 

Comparsas, reli há pouco A regra secreta, de Sebastião Uchoa Leite, publicado pela editora Landy, em 2003. O livro retrata de modo irônico, conciso e fragmentado o período em que o poeta esteve internado no hospital (tema que ele já abordou em outra grande obra, Ficção vida, que saiu pela editora 34), pouco antes de seu falecimento. Com olhar atento e muito senso de humor, Sebastião descreve desde as sensações de quem passou pela barra pesada de uma UTI até aspectos do cotidiano hospitalar, além de revisitar cenários e personagens de suas obsessões habituais, tirados de romances policiais e filmes noir. O resultado desse mergulho em profundidade é uma poesia rigorosa, ácida e antilírica de um autor que não teve piedade de si mesmo, lúdico e lúcido até o seu “pequeno fim”. Escrevo esta breve nota com saudades de Sebastião, a quem não conheci pessoalmente, mas com quem conversei por e-mail, durante algum tempo (ele também fez o favor de escrever a “orelha” de minha antologia Na Virada do Século, Poesia de Invenção no Brasil, que organizei com Frederico Barbosa). Bom, depois de A regra secreta, é bem provável que releia A uma incógnita, À espreita, Ficção vida e outros títulos do mestre, um dos maiores poetas brasileiros do século XX, ao lado de João Cabral de Melo Neto, Haroldo de Campos e poucos mais. Ah, sim: confiram na Zunái, no link Especiais, entre as matérias publicadas em edições anteriores, a homenagem que preparamos para o Sebastião. E leiam, abaixo, dois poema de A regra secreta:



 Escrito por Claudio Daniel às 15h45





AOS QUE PERGUNTAM

 

certo texto de gottfried benn
(nem parece dele mas
de um outro
de tripas
+ sensíveis)
indaga
de onde vem a modéstia
de certas almas
logo ele
afundado em corpos mortos
e que ouviu
um cadáver cantar
não vem de lugar algum
é igual indagar
aos suicidas em grupo
aos camicases
aos adeptos
do haraquiri
composita anima:
requiescat in pace!



 Escrito por Claudio Daniel às 15h45
 




UM ASSASSINO INGLÊS

 

Certo gentil Haigh convidava
Damas old people
Para ver a sua fábrica
Perto de Londres
E serem suas sócias
O galpão
Era uma fábrica da morte
Esquartejava-as
Bebia o sangue delas
Ritualmente
Depois dissolvia as partes
Em tonéis de ácido
Com máscara e luvas
Interrogado confessou enfim
Com orgulho
Seu labor artístico
Após o patíbulo o busto
No museu de cera:
Bigode sorriso olhos azuis

 

(Poemas de Sebastião Uchoa Leite, do livro A Regra Secreta, ed. Landy, 2003)



 Escrito por Claudio Daniel às 15h44





PRÁTICAS DE EXTRAVIO

  

Júlio Castañon Guimarães



 Escrito por Claudio Daniel às 08h37





ÀS VOLTAS

1.

 

por dentro um deserto

se poderia pensar

que com o tempo

para fora se alastrasse

 

(tenaz das imagens

sons em entrechoque

insinuações e recuos

às voltas com a rarefação)

 

e se movimento que não há

acabasse por operar

dos ardis do horizonte

até mesmo sua linha 



 Escrito por Claudio Daniel às 08h36
 




2.

 

com toda a aspereza

de uma operação

às voltas com o que

sequer aventa um corpo

 

nem todo o peso

do mundo ou da falta

repovoaria regiões

(ora talvez sem

 

impossíveis relatos)

entre devolutas e infensas

ante o meio-dia

de um raciocínio e corrosões

 

(Poema de Júlio Castañon Guimarães, do livro Práticas de extravio, 7 Letras, 2003)



 Escrito por Claudio Daniel às 08h35





EDUARDO JORGE ENTRA NA RODA

 

A revista Discutindo Literatura, editada pela Clenir Bellezi de Oliveira, chegou a sua quinta edição, trazendo matérias sobre Graciliano Ramos, Henry James e a tragédia grega, entre outros assuntos. No caderno “Verso e Prosa”, dedicado à divulgação de poetas recentes de qualidade, foi publicado um ensaio que escrevi sobre o cearense Eduardo Jorge, um dos bons nomes que vêm surgindo no cenário brasileiro, e uma mini-antologia de seus poemas. O Eduardo é um poeta que tem repertório: ele conhece Lezama Lima, Coral Bracho, José Kozer, acompanha as artes plásticas e o cinema, faz experiências com vídeo. Enfim, é um cara antenado, que tem curiosidade intelectual, faz pesquisas, não se limita a imitar piadinhas bobas de Manuel Bandeira ou Francisco Alvim. Ele não tem medo de correr riscos, recusa o lugar-comum e segue em busca do imprevisto, do inusitado, do estranho. É com esse fermento que se faz um poeta com “p” maiúsculo, desses que não brincam de boneca nem bebem toddynho ou groselha vitaminada Milani. Enfim, o Eduardo Jorge (que também edita a revista Gazua) está entre os que amam a poesia de verdade. Esse é dos meus. Em tempo: a Discutindo Literatura é publicada pela editora Escala Educacional e vendida em bancas de jornal. 



 Escrito por Claudio Daniel às 15h15





DIÁRIO DE UM VIAJANTE

Caros, cheguei hoje de Londrina, no avião das 07h. Estou muito cansado, mas contarei alguns rápidos flashes do evento. Houve mesas de debates sobre literatura contemporânea, com feras como Horácio Costa, Maria Esther Maciel e Maurício Arruda Mendonça, shows de música e poesia com Cida Moreira, Rodrigo Garcia Lopes e Ademir Assunção, uma peça de teatro do Mário Bortolotto, lançamentos de livros e revistas, inclusive a Ontem choveu no futuro, do impagável Douglas Diegues (sim, é verdade, a revista existe; sei porque tenho prova concreta e irrefutável deste fato, agora comprovável pela experiência empírica). A idéia dos organizadores é repetir o encontro no ano que vem; vamos pedir aos orixás que a iniciativa tenha continuidade! Não é sempre que tenho a chance de sentar numa mesa para beber vinho italiano com Chris Daniels (o árabe louco do Necronomicon), tradutor especializado em poesia brasileira, Josely Vianna Baptista e outros confrades (embora com blecaute nas luzes do hotel: nada é perfeito). Voltei para Sampa com a mala pesada, cheia de livros e outros objetos perigosos, e a vontade de voltar em algum futuro breve. Well, mas vamos às cenas curiosas: no sábado, durante o evento, ocorreu uma festa à fantasia em Londrina, que juntou 25 mil pessoas (!), segundo o nosso motorista de táxi (acrescentando que houve dois tristes episódios, com um mascarado morto por overdose, e outro assassinado com três facadas). Vimos no restaurante uma moça vestida de Cleópatra, e no hotel uma outra de minissaia verde-oliva, no estilo militar-erótico-chique. Já no domingo, houve festa nipo-brasileira, com direito a barraquinhas de tempurás gordurosos,  sashimis com validade vencida e terríveis vatapás (sim!), além de  um grupo de rock japonês ensurdecedor. Certa amiga minha, grande estudiosa da obra de Borges — a eminente professora Cordélia Campos — não resistiu e caiu na dança, repetindo a coreografia dos joviais dekasseguis. Pena que não tinha uma filmadora, na ocasião, para registrar o fato. Bem, por ora, é isso. Agora, vou trabalhar um pouco, antes que o Big Brother me descubra e me coloque de cabeça para baixo, suspenso pelos calcanhares, na sala para reeducação de desajustados laborais.

 

Kisses,

 

CD



 Escrito por Claudio Daniel às 09h49





BALADAS POÉTICAS

 

Caros, hoje tem um evento imperdível: a escocesa Liz Lochhead estará na Casa das Rosas para falar sobre a sua poesia e teatro, e haverá leitura de seus poemas, em inglês e português, com traduções de Donny Correia e Virna Teixeira. E no sábado, aliás, o Donny estará lançando o seu primeiro livro de poesia, O Eco do Espelho, no mesmo local, a partir das 19h. Para quem mora no ABC, outra opção é ir a São Bernardo ouvir a palestra de André Vallias, poeta visual e editor da ótima revista virtual Errática, dentro do ciclo "Fala, Revista", promovido pela Secretaria de Cultura do município. O evento ocorrerá na Câmara de Cultura Antonino Assumpção, rua Marechal Deodoro, 1325, Centro. O que mais? Amanhã cedo, pegarei o avião em Congonhas e irei participar do Londrix, Festival Literário de Londrina, para falar sobre a Zunái. Será ótima (e aceitável) desculpa para encher a cara com amigos como Horácio Costa, Maria Esther Maciel, Rodrigo Garcia Lopes e outros comparsas. Na mala, levarei Os Cantos de Maldoror, de Lautréamont. Bueno, por ora é isso! Abraços, 

 

CD



 Escrito por Claudio Daniel às 08h45
 




DIÁRIO DE UM CINÉFILO AMADOR

 

 

(Cena de La dolce vita, de Fellini)

 

 

Sou um cara apaixonado por cinema. Quando jovem, gostava de freqüentar os cineclubes da Praça Roosevelt e do Bexiga, para assistir filmes “malditos” como Salò, de Pasolini,  Querelle, de Fassbinder; Crônica do amor louco, de Ferreri, e o belíssimo Betty Blue, de Beineix. Nessa época, eu e minha turma gostávamos de beber cachaça em bares baratos, fumávamos como loucos (eu, só nicotina), ouvíamos muito jazz & rock and roll e acreditávamos que a revolução era inevitável. Os operários iam tomar o céu de assalto e enforcar os burgueses. Enquanto não chegava a hora de pegar em armas, fazíamos longas discussões sobre Fellini, como se fossemos críticos do Cahier du cinèma. Os caras mais exibidos faziam leituras de Buñuel a partir da psicanálise (com citações de Lacan e referências ao marquês de Sade); outros, em geral com cavanhaque, cachecol vermelho e óculos de aro de tartaruga, faziam paralelos entre a montagem fílmica e a semiótica; eu, mais modesto, buscava apenas a relação entre o cinema e a poesia, assunto que me interessa até hoje. Bem, essa introdução já está ficando longa e aborrecida. Tudo isso é apenas para dizer que fiz outra lista, com meus dez filmes favoritos. Nenhum critério aqui além do mero prazer pessoal, do tesão de ver imagens belas. Podem discordar à vontade. E antes que alguém levante a mão, vou logo respondendo: acho Tarkovski um chato de galochas.

 

Besos,

 

CD 



 Escrito por Claudio Daniel às 08h40
 




OS DEZ MAIS

 

1.      Trono manchado de sangue, de Kurosawa

2.      Contos de lua vaga depois da chuva, de Mizoguchi

3.      Teorema, de Pasolini

4.      Esse obscuro objeto do desejo, de Buñuel

5.      M, o vampiro de Dusseldorf, de Lang

6.      La dolce vita, de Fellini

7.      Nosferatu, de Murnau

8.      Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha

9.      Coração de cristal, de Herzog

10.  O bebê santo de Macon, de Greenaway



 Escrito por Claudio Daniel às 08h39
 




OUTRA LISTA POSSÍVEL

1.      O anjo exterminador, de Buñuel

2.      Metrópolis, de Lang

3.      Psicose, de Hitchcook

4.      O sétimo selo, de Bergman

5.      Blow up, de Antonioni

6.      Oito e meio, de Fellini

7.      O encouraçado Potemkin, de Eisenstein

8.      O gabinete do dr. Caligari, de Wiener

9.      Acossado, de Godard

10.  A mulher das botas vermelhas, de Juan Buñuel (sobrinho de Luís Buñuel)



 Escrito por Claudio Daniel às 08h38
 




DIÁRIO DE UM FEITICEIRO ZULU

Caros, estarei na Casa das Rosas na quarta-feira, dia 14 de setembro, participando do ciclo “Rompendo o Silêncio”, uma entrevista comigo aberta ao público, que pode participar fazendo perguntas. O evento, que começa às 20h, tem entrada franca e é realizado em parceria com o Depto. de Lingüística da Universidade de São Paulo (USP). Quem puder, apareça! Já no dia 16, sexta-feira, a poeta escocesa Liz Lochhead estará na Casa das Rosas para falar sobre os seus trabalhos em poesia e teatro. Na ocasião, haverá um recital de seus poemas, em inglês e português, com traduções de Donny Correia e Virna Teixeira. O evento tem apoio do British Concil. E no dia 18, domingo, Liz irá ministrar um workshop de dramaturgia juntamente com integrantes da Cia dos Dramaturgos,  das 10 às 17h. O endereço da Casa das Rosas vocês estão carecas de saber: Avenida Paulista, n. 37, pertinho da estação Brigadeiro do metrô. Quem desejar mais informações pode acessar o site http://www.casadasrosas.sp.gov.br/casadasrosas/index.jsp. O que mais? O blogue Pesa-Nervos (ver endereço ao lado) está publicando uma série de traduções de poetas israelenses, como Chin Chalon e Nathan Zakh. Aliás, este é um dos blogues de poesia mais interessantes, e sempre o leio após o café da manhã.  Mais novidades? Bueno, neste final de semana,  acontecerá o Londrix, Festival Literário de Londrina. Estarei lá, e bem acompanhado, com os manos Rodrigo Garcia Lopes, Sérgio Cohn, Horácio Costa, Marcelino Freire e outros amigos. Na ocasião, estarei falando sobre a Zunái. A programação do evento é bárbara, incluindo debates, lançamentos de livros e revistas (Babel, Coyote, Oroboro, a nova Et Cetera), show do CD Rebelião na Zona Fantasma, do Ademir Assunção, uma peça de Mário Bortolotto sobre Jack Kerouac e outras mumunhas mais. Ufa! Agora, com licença, vou ver se eu estou na esquina.   

 

Besos,

 

CD



 Escrito por Claudio Daniel às 17h47
 




QUANDO A PALAVRA SURGE, INTEIRA, DAS ÁGUAS

 

(O poeta moçambicano Luís Carlos Patraquim)

 

LÍNGUA

Mpurukuma, Língua, corpo quase,

o que sou de sobrepostas vozes,

Bayete!

 

E tu, pássaro da alma, Mpipi adejando

sobre o losango tumultuante de cores,

Templo onde me cerco,

não me abandones, cão inflando para o rio

uma escarninha balada que nos enforca.

 

Esfumou-se a Torre na praia nocturna,

a preposição que olfactava o nervo

e Ele dorme ainda e expulso.

 

Quando a palavra surge, inteira, das águas

e os espíritos batem a respiração do batuque,

Ele tacteia os nomes nas abóbadas de sangue

e entra pelo silêncio, dobrando-se

em número.

 

Leva-o nas tuas asas, ó sombra

que as patas de cinza espargiram no vento,

soluço de Leanor

em saínhos sete de capulanas mil,

Ilha mineral, Mpipi hílare no azul

onde me cego.

 

Que sinais sobre que mar do exílio ou